Um quebra-cabeças<br>que «brada aos céus»!...

Jorge Messias
Fantasiando, poderia dizer-se que «em casa onde não há pão, todos ralham mas alguém tem razão». Nesta altura, no mundo capitalista, chegam de toda a parte queixas, ralhos, críticas, amuos e tentativas de justificação. Os tecnocratas lançam críticas uns aos outros sobre as verdadeiras razões dos vergonhosos recuos da «aldeia global». E os adeptos do neoliberalismo de ontem interrogam-se agora metafisicamente.
«A economia global é um combóio em fuga» reconhece, pura e simplesmente, um luminar do sistema, o dr. Kenneth Rogoff, catedrático de Harvard e ex-Economista-Chefe do FMI. Tomadas de posição como esta têm um enorme peso informativo mas não significam que o sistema capitalista esteja derrotado. Pelo contrário, tal como as feras, quanto mais seriamente ferido mais perigoso é.
Os estrategas máximos da «globalização» chegaram ao entendimento do que o que tentavam construir era uma verdadeira manta de retalhos e um emaranhado de becos sem saída. As bolsas deliram e os câmbios estão descontrolados. O crescimento económico é constantemente revisto em baixa. Aumenta o desemprego e as falências das pequenas e médias empresas. Mas as grandes concentrações de capitais privados passam ao lado da crise e amontoam lucros nunca vistos, como é o caso do petróleo, da superbanca ou da construção no sector imobiliário de luxo.
Tanto quanto é possível entender, a análise destas realidades conduz os génios do capitalismo à conclusão de que é possível salvar o essencial do primeiro projecto de «aldeia global» através de conceitos alargados de organização dos estados, por áreas de influência. Isto é, em lugar do pano de fundo das democracias domésticas que são invocadas pela União Europeia, pelo mosaico da América Latina ou pelos gigantes, cada vez menos adormecidos, dos estados da ex-URSS, da União Indiana ou da República da China, passar-se-ia a uma nova partilha imperialista dos mercados em benefício dos mais fortes, como a União Europeia, os EUA, a China, a Índia, o Brasil emergente, o Médio Oriente arábio-judaico, a partilha do Continente entre as nações africanas mais fortes, etc. O mapa final seria traçado em poucas décadas. Os países periféricos, sem qualquer poder económico, ver-se-iam abandonados a si mesmos. Dos fracos não reza a História.
Caso tal aconteça e se o megaprojecto da salvação do capitalismo tiver pernas para andar, fácil será prever que futuro se prepara para Portugal. Aliás, há indícios seguros de que futuro aguardará os nossos filhos caso os trabalhadores e os cidadãos conscientes não se ergam, agora, para a luta em defesa dos direitos e conquistas fundamentais. E recorde-se que a resistência à exploração do homem e à subversão total do sentido colectivo da honra não é agora que começa. As lutas de classes têm sólidas fundações no passado.
Como é sabido, a economia portuguesa encontra-se em queda livre. Sem quaisquer escrúpulos, gerações sucessivas de responsáveis políticos gastaram em seu proveito ou em benefício das camarilhas que sempre os acompanhou gigantescos subsídios da CEE, da União Europeia ou doutras fontes capitalistas. É evidente que o Fundo Monetário Internacional, o aparelho do Estado, a Banca e a Igreja Católica sabiam bem o que acontecia, não só em Portugal mas à escala planetária. Porque é bom que se reconheça que todas essas entidades têm recolhido enormes benefícios com a exploração e a desonestidade pública. Todas elas, quando acusadas, se têm remetido ao silêncio. Olham para o lado e assobiam.
Há semanas, no entanto, o FMI decidiu que seria de bom tom referir-se o «caso português» que se arrasta e cada vez mais se afunda desde o 25 de Novembro de 1975. O Fundo lavou daí as suas mãos, como Pilatos: «os problemas fundamentais da economia portuguesa são domésticos: défice externo e público, endividamento das famílias, empresas e Estado, e um grande défice de competitividade». Feito o mal, veio a caramunha e o FMI «esqueceu-se» convenientemente que foi ele a ditar, ao longo de anos e anos de submissão as regras básicas do comportamento político do Estado português. Agora, os portugueses que se entendam.
O que se anuncia nas altas esferas do capitalismo é, uma vez mais, uma já tradicional «fuga para a frente». Se a «globalização» com base nos Estados, estoirou como um simples balão, é necessário renovar os arsenais mas não os objectivos estratégicos. Impõe-se ampliar a meta da globalização aos blocos de estados, fundindo-os entre si ou subordinando os mais fracos aos mais fortes. Criando por toda a parte, com apoio na demagogia, na sociedade civil, nas aparências de revolução social ou sob as vestes da caridade cristã situações propícias ao desenvolvimento da exploração do homem pelo homem a níveis nunca imaginados.
Só a coragem e a organização dos trabalhadores em luta aberta poderá impedir que isso aconteça e virar, novamente, os rumos da História.


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